quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

QUANDO A INFÂNCIA VOLTAR

Este ano, como nos anteriores, não tirei oficialmente férias. Todavia, como a escola está fechada, dei-me o luxo de tirar um tempo para passear; resolver umas coisas e até relaxar.
Esse último, descobri, é quase impossível fazê-lo.
Assustei-me com a constatação de que não consigo mais relaxar. A ociosidade parece acusar a minha consciência, o tempo inteiro, de que não tenho esse direito. Sei que isso é terrível e, certamente, não é nada saudável.
Tudo começa com a hora de acordar, não consigo passar das sete horas, dá uma sensação de está perdendo o dia, “este que não volta mais”, é o que penso. Resolvi este problema deixando sempre ao lado da cama os meus óculos e algo para ler.  Lendo, eu tenho a certeza de não está perdendo tempo enquanto não faço nada. É assim quando estou em filas de banco, de supermercado, em salas de espera, etc. Se não há nada para ler eu dou um jeito de puxar conversa com alguém, ou retiro um lápis e papel da minha bolsa e começo a desenhar ou escrever. Ficar parada esperando o tempo passar é sempre uma tortura para mim.
Já virou motivo de gozação e de protesto também, a minha mania de não conseguir ficar parada. Para assistir a um filme comigo, as minhas filhas chegaram a uma decisão - “só se for no cinema”. Em casa eu estou sempre achando um motivo para me levantar, fazer uma pipoca; desligar a máquina; atender ao telefone; colocar o lixo para fora e outras coisinhas que vão aparecendo como urgentes na minha cabeça. Há também o agravante de, além de encontrar o que eu fazer, as vezes encontrar para os outros fazeren também e aí já viu né¿ Os protestos são maiores ainda.
Não consigo achar o equilíbrio entre relaxar e ser responsável. Pode parece fácil. Para mim, nunca foi. Sempre que decidi relaxar totalmente, parece que excedi. Além da minha própria consciência foram muitas as cobranças e críticas recebidas. Então, concluo que não sei aproveitar o ócio.
Penso que perdi essa capacidade, ficou lá na infância, tempo bom, que passava devagar, dava tempo de se deitar na grama e assistir as nuvens desfilarem as suas criatividades de criar desenhos. Dava até para me imaginar pulando nelas, fofinhas, me escondendo e dando cambalhotas, como numa cama elástica gigante. Nesse tempo, o tempo também esperava eu ficar deitada no meio do sítio, com os olhos fechados, fingindo-me de morta, para enganar os urubus que voavam tão alto, pareciam risquinhos pretos rodeando no azul do céu.  Ainda sobrava tempo para brincar, tomar banho no rio e tantas outras coisas, antes da noite cair escurecendo o sítio e suspendendo o tempo para o outro dia. 
Hoje o tempo é insuficiente, fica perdido nos afazeres domésticos; nas idas e vindas pelo trânsito estressante; nas filas de bancos; no trabalho; nas oficinas, consertando o carro; nos supermercados. Quando sobra um pouquinho eu leio um livro, os Blogs; visito meu Orkut, para dar um alô para os amigos, que eu não tenho tempo de encontrar pessoalmente; essas coisas. De vez em quando, me faço de doida e me excedo, aí já entendeu né¿ Depois vem a consciência; as broncas.
Sei não, viu¿ Um dia eu encontro esse tal equilíbrio ou vou vivendo assim até ficar bem velhinha, quando se recebe de volta a infância e todo o tempo para observar as nuvens; o céu e as coisas boas que a fumaça da responsabilidade não permite enxergar nitidamente quando somos adultos. 

8 comentários:

lusinez disse...

kkkkkk É bem a sua cara mesmo esse comentário.
Mas relaxe, procure diminuir um pouco o rítimo, vá aos poucos, ai vc consegue.
Xero!

vovo cibernetica disse...

Ivana ,voce é realmente uma pessoa super ativa,mas será que compensa
tanto corre,corre? As vezes precisamos esquecer que somos tão
eficientes e procurar se desligar
dos infindos compromisos . Lembre-se
que quem corre demais as vezes precisa parar e pensar: Será que compensa ? !!!
Digo isso mas sei que voce é alto
suficiente e sempre faz as coisas
certas .
Um abraço carinhoso de quem te admira
06/01/2011

AC disse...

As vicissitudes da vida obrigam-nos a pegar nas coisas e a descobrir que o desafio é constante. De tal forma que, sem nos darmos conta, pensamos que a nossa presença é indispensável em tudo. E aí é que está o erro. É que, sem a nossa presença, a vida segue sempre o seu curso. Se tivermos noção disso (o que, na correria do dia a dia, é difícil) então talvez saibamos abrandar e ter tempo para olhar para a maravilha das pequenas coisas.
Ivana, estou a dizer-lhe isto mas a sentir o mesmo problema. :)

Beijo :)

Jeanne disse...

Não sei parar quieta. o pouco que assisto TV é só entrar comercial que dou um pulo e vou fazer outra coisa. Só paro quando deito à noite, aí sou obrigada mesmo,rsrs
O psiquiatra disse que é por causa da ansiedade, sei lá. Nem me preocupo mais, pq não vou conseguir mesmo, ainda que esteja com medicação.
Acho que relaxas olhando o orkut, visitando blogs, etc. é um relaxamento ativo mas imagino que faz o mesmo efeito do que ficar parada sem fazer nada,rsrsrs
beijos

maricota disse...

lindo o texto, as vezes a vida passa como se não estivéssemos na mesma, é preciso mais atenção e cuidado, puxar o freio de mão e aproveitar sempre. parabéns.

Jorge Nectan disse...

Centramos a nossa vida na correira do dia-a-dia e esquecemos de nós mesmos. Sempre nos dá a sensação que o tempo corre. Mas somos nós que corremos.
Pensando bem, não sabemos viver pois não nos curtimos e não nos permitimos curtir.
Com tantas emoções em nós mesmos, como liberá-las sem viver? Creio que este acúmulo de emoções (não colocamos para fora) faz com que nos agitemos mais e mais. Mas a própria vida vai nos cobrar mais ponderação e consequentemente mais reflexão.

Uma ótima semana para você, Anjo!!!

Wolber Campos disse...

Oi Ivana!! Tudo bem?

Que texto incrivelmente sábio! Eu sou de peixes e isso me faz uma pessoa mais sossegada. Mas me identifiquei com muita coisa do que você disse.

Quase entro em crise se vou a um banco e esqueço o livro. Não tenho tanto tempo para ler durante o dia, desperdiçar ricos minutos de leitura quando poderia então...

A vida adulta traz dessas coisas mesmo. Temos que achar sempre um meio termo e nos forçar ter um pouco o lado criança que falou.

Perceber isso já é uma grande vitória. Quantos não estão nessa loucura e nem se dão conta?

Muito bacana seu blog!

Grande abraço!

DecorAfins disse...

Sabe que me identifiquei bastante com esse post... Não sei ficar parada, dormir durante o dia, nem pensar... Simplesmente não consigo ficar parada... só para ver filme aí sim me dou o prazer... mas acho que cada pessoa tem que encontrar a sua "valvula de escape" já conheci gente que pra relaxar ou aliviar a pressão ia lavar a geladeira... isso me estressa mas ela ficava bem calma fazer o que, o que quero dizer é que você com certeza tem sua forma de relaxar, só que ñ é igual as outras pessoas...

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