quinta-feira, 1 de maio de 2014

O LIMPADOR DE PARA-BRISAS

Que o transito da cidade de Natal está um caos, isso todo mundo já sabe. Os motivos também: As terríveis e infindáveis obras da copa (“os legados”); A falta de estrutura das vias públicas para acomodar uma absurda frota de veículos particulares que, de acordo com as pesquisas, trata-se da segunda maior frota no Brasil em comparação com o numero de habitantes, perdendo apenas para São Paulo; As outras obras inacabadas que se arrastam lentamente há anos ou encontram-se totalmente paradas, por pura incompetência dos governantes e comodismo nosso; Os motoristas inábeis e, pior ainda, os maus educados que se acham espertos furando filas e ignorando totalmente o que é gentileza.

Agora, imaginemos esse trânsito, às seis horas da noite, na véspera de um feriado, na saída do conjunto Cidade Satélite para atravessar a BR 101 e alcançar o sinal da entrada da Avenida Maria Lacerda... Foi o que enfrentei ontem.

Lá venho eu, seguindo uma procissão de carros para alcançar a BR. Na esquina, ponho o braço para fora, esticando o polegar, em apelo às gentilezas das pessoas para me deixarem atravessar e rezando que uma moto não me pegue de surpresa pelo meio ao transpassar os corredores dos carros.

Consegui, enfim, chegar ao outro lado da pista. Agora exercito a paciência de enfrentar uma fila enorme de carros, passando apenas a primeira marcha e me arrastando um metro por vez até alcançar o sinal.

Por sorte, uma músiquinha nessas horas ajuda a relaxar e isso eu sei bem aproveitar, faço um showzinho particular dentro do carro ignorando os motivos para estresses lá de fora e ignorando também os olhares nos outros carros com os balõesinhos saindo da mente: - É uma doida?

Eis que subitamente acaba o meu “relex”, de longe eu já observo os benditos “flanelinhas” limpando (ou sujando mais ainda) os para-brisas dos carros em troca das moedas que a gente se vê na obrigação de dar. A sensação que eu tenho é quase a mesma de ser pega numa blitz da polícia rodoviária. A vontade de fugir daquilo.

Já começo a tatear dentro do carro tentando encontrar o pagamento para o serviço do rapaz. Não encontro nenhuma moeda. Inicio então o ensaio mental do meu discurso para me justificar: – Desculpe-me, estou sem nenhuma moeda. Fica para uma próxima vez?!

Dito e feito. Lá vem ele, direto pra meu carro, ignorando os meus apelos de – Não, não precisa! Não limpe, estou sem moedas! – O tal já inicia o seu trabalho espremendo uma garrafinha de plástico e jogando aquele jato de água no para-brisa que dá a impressão de ir atingir os nossos rostos.

Fico ali, impotente, assistindo, torcendo que ele, ao menos, não quebre as palhetas do limpador, como fez outro, me dando um prejuízo maior de ter o vidro arranhado.

O jato de água escorrega pelo vidro e aos poucos vai revelando a imagem daquele menino-homem, compenetrado no seu serviço instantâneo de limpar o vidro. Fico prestando atenção nele.

Observo o seu “quase sorriso” de dentes estragados e a minha mente viaja em questionamentos: - A quem será que ele recorria quando criança, em seu sofrimento com dor de dente? – Quem lhes acalentava os medos, as ansiedades e as frustrações? – Quem lhes supria as carências de mimos, de atenção e até mesmo de necessidades básicas? – Quem contribui para torna-se o que hoje é - “um limpador de para-brisa”?

Lhes pago apenas com um sorriso carinhoso e um obrigado. Recebo de volta outro gesto e palavras de gentileza e saio liberada pelo sinal verde, com o coração apertado levando a imagem daquele rapaz que poderia ser meu filho e que se fosse não estaria ali naquelas condições.
(Ivana Lucena 01/05/2013).


7 comentários:

AC disse...

Ivana,
Leio o que escreve e imediatamente me chegam à mente palavras como viver, sobreviver, dignidade, (des)governar, eu sei lá que mais...
Os seus textos respiram vida, transpiram emoções, destilam dignidade.

Beijo :)

Ivana Lucena disse...

Ai, que lindo AC! E você transpira poesia, atém mesmo em um simples comentário. Fico muito feliz em saber que consigo transmitir tudo isso para você, espero alcançar dessa mesma forma, outras pessoas também. bjs

Dilmar Gomes disse...

Amiga Ivana, acho que o trânsito anda caótico em todas ou nas principais capitais deste país. Aqui em Porto Alegre a coisa não é diferente. Um abraço. Tenhas uma boa noite.

Ivana Lucena disse...

Olá, Dilmar! Obg pela sua participação. Dizem que a quantidade exorbitante de veículos particulares nas ruas é o grande sinal da ineficiência dos transportes públicos e, por consequência, da incompetência dos governantes. Um abraço.

Ivana Mara Tavares de Souza disse...

Gostei Dona Ivana. Tb não me sinto bem em não dar dinheiro e tb em dar. Eu sou uma mera estudante, não tenho estagio, emprego ou bolsa de pesquisa, vivo com o dinheiro q meus pais me dão qdo tão d bom humor e ainda qdo chego nesses sinais tenho q dar o pouco q tenho ou uma desculpa q não tenho, q muitas vezes eles recebem de mal grado, como c eu não quisesse ajudar.

Voltrotz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ivana Lucena disse...

Ah, Ivana, fico tão feliz que tenha lido. É assim mesmo o sentimento, conflituoso. É tanto caos social que nem conseguimos enxergar muitas vezes uma saída. Mas as saídas nem sempre são portas, as vezes são meras frestas que se abrem para passar um sorriso, uma palavra gentil, um gesto, uma atitude, uma ajuda qualquer. Cada um deve fazer a sua parte no momento em que se sentir tocado à fazê-la. bjão, meu amor.

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